o prazer do vazio

folhas em branco causam sempre o mesmo efeito em mim.

aquele velho e familiar sentimento de infinitas possibilidades. como se fosse a chance de começar algo do zero, um recomeço.

em sua frente não tenho passado, não tenho futuro.

tudo que tenho é aquele momento. aquela chance de criar.

criar personagens, criar histórias, contar mentiras, contar verdades.

com ela ao meu lado posso trocar uma idéia com raskolnikov, posso paquerar com, ai ai, audrey hepburn, posso fazer um dueto com johnny cash.

na sua imensidão pálida dou um mergulho no parque de diversões que costuma ser minha cabeça.

posso colocar pra fora os meus sentimentos, angústias.

posso ser criativo. posso ser brega.

você deve estar pensando:

– mas que exagero. não passa de uma folha em branco!

então pergunto: quem nunca teve vontade de ter outra chance?

na frente da minha amiga vazia sou quem quiser ser.

e não precisa ser uma folha especial, não. pode ser uma dessas comuns, do word mesmo.

afinal de contas, nada se compara com a oportunidade de um restart.

sou mesmo um privilegiado por toda manhã ter um encontro com uma folha em branco.

sexta-feira

eu acho engraçada a revolução que a sexta-feira causa na vida das pessoas.

sério mesmo.

ss sextas-feiras são repletas de perguntas como:

– e aí, qual é a boa de hoje?

e se você ousar responder que não vai fazer nada corre o risco de ser olhado de uma maneira estranha, como se de repente seu rosto se transformasse no de dercy gonçalves.

com hanseníase.

sem falar que ninguém trabalha na sexta-feira.

nem os chefes.

aliás, muito menos os chefes.

a única coisa que acontece nas sextas-feiras são as conversas:

– hoje eu vou na boate, pegar arnega (playboyzês para “as negas”).

ou então:

– amiiiiiiiga. tudo certo pra hoje, né? vai ter felipão & forró moral na boate. a gente se encontra lá. beijo, miga.

argh.

eu fico nervoso nas sextas-feiras.

essa pressão social pra fazer alguma coisa me tira do sério.

numa sexta-feira dessas, justo quanto eu tinha prometido que ia arrancar o fígado pelo sovaco do próximo que me perguntasse o que eu ia fazer, um dos meus chefes entrou na sala e começou a discursar sobre como ele adora a sexta-feira, como ele passa a semana toda esperando por ela, o pacote completo. parecia até que ia ressuscitar
ele passou, no mínimo, meia hora puxando o saco desse maldito dia.

eu estava suando.

minha cadeira estava parecendo uma daquelas bóias de parque aquático. aquelas que quando você se mexe faz um barulho agradável, sabe?
de repente ele virou pra mim e fez:

– e aí, paulo? hoje você vai…

o sangue subiu.

a veia na minha testa parecia o grand canyon e eu não me controlei. levantei da cadeira, pronto para falar alguma coisa que com certeza resultaria na minha demissão por justa causa assim que ele completasse a pergunta.

ainda bem que ele falou:

– … sair na hora, né? pra compensar que você ficou até tarde ontem.

ufa.

odeio sextas-feiras.